MEIA DÚZIA DE ANOTAÇÕES

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por Bianca Dias

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A pergunta que abre a chamada ao festival me parece essencial: "Quem você gostaria de ter ao lado?”. É uma pergunta que convoca o encontro, conclama uma comunidade, flerta com a mistura. Algo aí me evocou um diálogo, sobretudo com O Espaço Literário de Maurice Blanchot, aonde a ideia da "errância" é discutida como eixo de uma prática que desconhece seu ponto de chegada e não abdica de sua força motora irredutível (ainda que, por vezes, desconhecida); e também "idiorritmia", termo empregado por Roland Barthes no seminário ‘Como Viver Juntos?’, para designar todas as forças que conciliam ou tentam conciliar o comum e o singular das existências. 

 

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Há uma outra questão: esse encontro com a diferença e a dimensão do outro, sabemos bem, não se coloca de maneira anódina. Nos diálogos que o festival propõe, há a dimensão do encontro, mas também da fricção, do tropeço. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai procurar o inconsciente. Ali, alguma coisa quer se realizar – algo que parece com o intencional, certamente, mas de estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado. É assim, de começo, que a exploração freudiana encontra o que se passa no inconsciente. Um achado que é, ao mesmo tempo, uma solução – não forçosamente acabada, mas, por mais incompleta que seja, tem esse não-sei-o-quê que nos toca com esse sotaque particular. Nesses dípticos ou trípticos que surgem do encontro do olhar dos artista há a surpresa, a errância como método de afirmação da vida, a geometria de um tempo que escorre, tangente à velocidade das transformações contemporâneas da paisagem e que se deixa pontuar, por tais características, pela projeção de um processo subjetivo. 

 

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Freud se utiliza de uma ideia de "'outra cena" para nomear o registro do inconsciente. Com Lacan, essa outra cena adquire uma dimensão central, pois corresponde a um lugar no qual ocorrerá a determinação do sujeito; ou seja, é no campo do Outro que o sujeito estará às voltas com sua própria condição de ser falante. O Outro como o campo simbólico do sujeito é introduzido por meio do uso da linguagem. Lacan parte da evidência de ser a cadeia simbólica fundamental à inserção da criança na linguagem e na cultura, e precisar ser sempre atualizada a partir do encontro com a diferença. 

 

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A ideia de Outros no festival reaviva esse diálogo. Se "'dois não fazem um", é possível abrigar o dissenso, deslocar-se do centro e ir até às periferias, ir além do que espelhamento imaginário, do reconhecimento imaginário. 

 

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A mistura de linguagens e línguas: teatro, dança, performance, escultura, ocupação, música e a pulsação de questões múltiplas sobre o corpo, o espaço, a política criam um caleidoscópio de vida e invenção num contexto absolutamente distópico, retomam a capacidade crítica e ficcional. Os artistas: Eduardo Fukushima e August Severin, Elisa Ohtake e Carolina Bianchi, Juliana França e Celina Portella, Laura Vinci e Joana Porto, Leonarda Glück e Igor Augustho, Mirella Brandi e Muep Etmo, Sandra-X e Edu Marin, Yara Ktaish, Panos Aprahamian e Cadu Tenório retomam nas mãos o lugar movente do corpo, agora confinado e apartado do convívio público. Oito obras, duas ocupações; encontros que fazem uma cartografia histórica e sensível de nossa época. 

 

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Nas semanas em que pude acompanhar as estreias fui seguindo a trilha desenhada pelos curadores e artistas. Na obra "CÂMARA", um retrato da agonia e do isolamento, e um desejo de rearticulação do dentro e do fora. Em "CANTOS", as texturas diversas do corpo, da tela, da casa, as falhas de conexão, os ruídos, os bichos, uma forma de inscrição do inabitável que nos circunda. Em "DECANTAMENTO", uma poética do atrito que se desloca até o decantar máximo dos limites entre cultura e natureza. Em "BRECHAS/FUNDO”, os abismos vão se recortando e se inserindo a partir de interferências e gestos como cortar, rasgar; o corpo denuncia a ilusão e o campo de contradições que envolvem a imagem e o que chamamos por realidade. Em "KWASY", há a presentificação de algo disruptivo que estrutura a linguagem e um recuo crítico frente às imagens, como uma Babel atravessada pelos momentos de vazio ao qual estamos submetidos (um vazio que é também, e paradoxalmente, excesso de presença e ruídos). Já "MATHEUS E JANUÁRIO" possui a forma de um poema dividido em três tempos; a beleza epifânica do encontro do praticante de parkour com o jovem bailarino; encontro de gestos, magia e alquimia. "NA BOCA DO SAPO – UM VIDEOGRAMA AMADOR", diversas representações sobre a presença humana no limite entre a tecnologia e a animalidade. E, por fim, o encontro das "QUARENTENA FASCINAÇÃO/ QUARENTENA SINISTRO" traduzindo pensamentos e sensações estéticas da quarentena: tudo pode ser mostrado e há um fascínio pela imagem; não se faz silêncio; uma dimensão fantasmática de produção de presença que é tratada na agudeza da ironia. As obras constituem um corpus ensaístico pulsante, um conjunto de vertigens e apostas, um manancial inventivo e crítico que nos ajuda a atravessar e elaborar algo do horror dos nossos tempos.

 

 

Bianca Dias é psicanalista e crítica de arte e acompanhou o OUTROS Festival como convidada do eixo Reflexos. 

 

O encontro ao lado de Filipe Campello pode ser acessado na íntegra aqui

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