Ministério do Turismo, Secretaria Especial da Cultura, Governo do Estado de São Paulo,
por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e Antro Positivo apresentam

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CURADORIA__

Ruy Filho

Pat Cividanes

PRODUÇÃO__

Heloísa Andersen

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO__

Eliane Sombrio

ASSESSORIA DE IMPRENSA E MÍDIAS SOCIAIS__

Nossa Senhora

da Pauta

REALIZAÇÃO__

Antro Positivo
Plataforma de Arte

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Um festival sempre começa a partir de um desejo: o nosso foi responder quem gostaríamos, nesse instante, ter ao nosso lado. Depois levamos a pergunta adiante: quem - cada artista convidado - gostaria ao seu lado? Na reunião entre dois ou mais surge uma atmosfera criativa que se provoca e completa. São oito obras, em dípticos e trípticos, duas ocupações e alguns encontros mais que resumem o quanto este momento precisa ser retratado como diferente de tudo até aqui. Agora o Outro é também o meio mais precioso de confrontar o isolamento, reinventando-o a partir do encontro de cada um com a própria vida. Você já se perguntou a quem você importa na sua condição de Outro?

OU

Quem você reconhece importar como Outro ao perceber na ausência uma espécie de presença irrefutável? Um ou vários? Outro. Grafado assim, singular, de certa maneira simplifica as partes sugerindo existir nelas razoável passividade ou, ao menos, conformismo. Pois, não sendo o ‘isto’, ‘este’, ‘eu’ ou ‘meu’, Outro é o ‘aquilo’, ‘aquele’, ‘ele’, ‘de alguém que não o mesmo’. De modo que, ao estabelecermos o objeto Outro, este assume uma espécie de solidão na projeção de quem lhe diferencia, sem que se assuma maiores responsabilidades por sua distinção. Tornado Outro o nomeado de alguém, as distâncias e caracterizações revelam importar mais as individualizações; um convívio que desvela o indivíduo enquanto centralidade à observação avaliativa. Olha-se o Outro, portanto, a partir de si. Mas nem sempre isso significa verdadeiramente percebê-lo, incluí-lo.

 

O uso plural muda tudo. Outros. Anula a possibilidade de haver nas partes - objetos e indivíduos -  sistemas comparáveis e justificáveis. Ainda que o centro continue a partir da percepção do eu, aquele não é mais apenas um, e sim a potência sensível da multiplicidade dos muitos uns em cada um. O particular não está dado: precisa ser reconhecido a partir de sua experienciação. E tanto só ocorrerá quando o indivíduo abandonar o contexto opressivo da afirmação de si diante a objetificação do Outro. Trata-se, então, de reconhecer a identidade no movimento simultâneo de ajuntamento aos novos sentidos e o como se manifestar diante a comunidade frágil e circunstancialmente erguida. Todo encontro a partir do afeto e empatia confirma, em alguma medida, disponibilidade pelo comum.

 

Deslocar-se do centro autoafirmativo mobiliza também aquilo entendido por sujeito, ao tempo em que nos torna mais abertos aos Outros em iguais condições. O indivíduo é, antes, o outro do Outro, e isso diz respeito ao como se colocar responsável ao fortalecimento dessa indiferenciação, inclusive a outras manifestações viventes. Nos termos da filósofa e bióloga Donna Haraway, trata-se sobretudo de acessar junto ao Outro uma Alteridade Significativa, na qual a Responsabilidade deixa de ser um atributo moral ou ético para ser a Habilidade de Responder, a partir da condição de existir Outro desse alguém. É o que nos torna entidades Multiespécies, sem que o estranho individual possa ser integralmente capturado. Capturado por quem?

 

Por isso superar o Outro singular como objeto de relação com o real, como suposto espelhamento simplificado cujo reconhecimento serve apenas às padronizações das identidades generalistas e dos especismos hierárquicos. A equalização dos indivíduos anula as diferenças a fim de aprisionar o estranho; consequentemente, produtifica sobre a identidade valores que não funcionariam quando aplicados ao múltiplo, como bem tem investigado Byung-Chu Han, ao refletir sobre a alteridade no contemporâneo.

 

Trocar, então, a Interação entre indivíduos, melhor dizendo, entre partes não divisíveis específicas, entre o eu e o outro, pela Intra-ação, na qual o emaranhado de cada gesto e encontro particular provoca a realidade por meio de e como peça, simultaneamente, reconfigurando-se a cada nova ação, em um ininterrupto existir de outros aos Outros em atualizações vertiginosas. Significa compreender a realidade não mais pelo que nela se projeta e antecipa mas pelas relações particulares, através das quais o indivíduo nada mais se revela do que tão-somente a existência manifesta dentro e através dos próprios fenômenos.

 

É Karen Barad quem nos convida a subvertermos o movimento de como observamos os elementos não-humanos e humanos propondo distinta compreensão. Tal perspectiva pode ampliar o conceito da filósofa e física ao como observamos humanos e humanos, a partir de suas simplificações pragmáticas. Seu conceito de Realismo Agencial entende a observação implicar em uma inseparabilidade ontológica do viver que estabelece também um corte entre o incluído e excluído a partir do considerado. Diferentemente do relativismo moral, o indivíduo, agora, surge especificamente pelo corte, por aquilo que nele e por ele se aceita ou recusa, se coloca ou desvia. Assim, o indivíduo assume, como tudo mais, uma propriedade fundamental: a de materialidade discursiva.

 

Em resumo, Outros não são outros, são discursos em abertos à investigação da Realidade Agenciada pelo corte oferecido no como elaboramos nossas observações sobre ele. Quanto mais plurais, diversos, distintos, maior a capacidade de revelar a realidade a partir da Alteridade Significativa capaz de encontrar na diferença o comum. Sejamos, então, especialmente Outros. A nós, aos demais, em nossas multiplicidades, nossas multiespecificidades. Sem o receio de perde algo ou perder-se. Sejamos a materialidade de novas qualidades discursivas não equalizadas às expectativas produtivas que se apropriam dos corpos e presenças para determinar identidades controláveis.

 

Por isso Outros Festival não é mais um evento, simplesmente. E, ainda assim, é o exato disso também. Só que é, antes, um convite para sermos juntos, artistas e públicos, Outros de nós mesmos, Outros aos Outros, Outres de Outros, Outres em Outrens, na busca de uma Heterotopia Temporal que acredita no viver como espécie de insurgência estética ininterrupta, incontrolável e incontornável, pela qual podemos manifestar diversas responsabilidades, ou melhor, novas Habilidades em Responder ao mundo, à Gaia, a tudo e ao futuro.

 

Bem-vindes.

E um ótimo festival a todes.

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