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UM FESTIVAL

SEMPRE

CONVIDA A

CONTRARIAR

O REAL

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Segundo Peter Sloterdijk, a arte inveja a vida, daí seu impulso pela ficção [um gesto de criação de vidas outras], espécie de salto ao interior da realidade, cujo amoralismo estético seria próprio da exigência prática imposta aos direitos sensíveis. Exigência essa para levá-la rumo a uma cultura harmonizada, na qual a arte acaba por se tornar menos importante e [perigosamente] menos filosófica. Ele explica, ainda, ser a negatividade tão presente na arte burguesa, enquanto contraponto ao harmônico, uma espécie de pulsação do segredo da vida. Foi isso que a levou querer um todo feito de extremos e não apenas um meio-termo sem tensões.

 

Mas há limites. Um dos apontados pelo filósofo alemão é a fronteira imposta no processo qual define por esquizoide da civilização. Nele, a ambiguidade da sociedade com a arte é evidente: não lhe permitir ir demasiadamente longe, pois, se não for limitada, traz prejuízos às mentalidades dos indivíduos. E uma cultura harmônica precisa de indivíduos mentalmente seguros, inteiros e controlados. Por fim, define em duas as regras da ecologia social da arte: Autêntica e Imitação. À primeira compreende tudo aquilo vivo, original, raro e seus impulsos são delimitados pelas ficcionalizações, ou seja, pela vontade de inventar realidades sobre outras possibilidades civilizatórias e de presença. À segunda, inofensiva, a partir da propriedade de massificar a arte em sua qualidade estética de mercadoria, o que é plausível concluir levaria o convívio com a linguagem ao esgotamento de sua potência desviante.

 

Portanto, pensar um evento, a partir dos muitos limites que se colocam, requer posicionar-se logo de início: Autêntico ou Imitação? São muitas as maneiras de organizar um acontecimento. Assim como são incontáveis como estes se darão. Quando se trata da organização de um acontecimento em arte, então, tudo é exponencial. E impõe escolhas. Uma mostra, por exemplo, organiza a arte a partir da amostragem disponível, recolhendo e aproximando a produção existente em específico recorte a partir dos interesses de quem a organiza. Mostra-se aquilo já dado, quase sempre. Significa, por conseguinte, importar sobretudo a capacidade em recortar, em olhar, em escolher.

 

Festivais, por sua vez, caminham diferentes. Não atuam necessariamente a partir do existente, ainda que nada lhes impeça seguirem também essa trajetória. Contudo, possuem a liberdade de superar o pronto, a fim de provocar no interesse pelo que virá outra qualidade de experiência. Ao programar o inexistente, olha à arte como ocorrência dinâmica; convida à descoberta em coletivo cúmplice participativo. Um Festival se organiza e justifica ao tempo em que se revela e é inventado. Assim, quanto menos específico for, vai aos improvável e inesperado para atribuir às linguagens outras propriedades. As diferenças sempre se somam em uma experiência ao tempo. É o que permite pessoalizar a qualidade do envolvimento, diante as próprias empatias com um criador ou linguagem. Importa, então, a amplitude em agregar, em receber, em conduzir.

 

No contexto pandêmico, ainda acelerado por aqui e sem previsão de interrupção, destituir hierarquias é ainda atribuir aproximações nos mais diversos níveis: entre artistas e entre os públicos. Contudo, não há como superar o imponderável, de modo que as obras passaram a incluir indiretamente ou de forma mais clara a distância entre quem criou; limites de produção; o esgarçamento do tempo, já tomado pela rotina ininterrupta; as dificuldades dos interesses particulares, então traduzidos uns aos outros em esperas e tentativas; os abismos emocionais inevitáveis consequentes aos fatos. As obras criadas para o OUTROS Festival são, por fim, a radicalidade do desejo sobre quem se quer ser ao próximo. Como se, ao existir ao Outro, passássemos de volta ao estado vivo e presente do mundo.

 

Em um dos seus livro-ensaio mais recente, Hal Foster investiga a condição levada ao artista a partir da perspectiva de como as criações passaram a compor outras qualidades de encontro com o Real. Se antes, escondido ou enterrado, para então se tornar ignorado, mesmo quando exposto à superfície mais visível, localizando com isso o Real no sujeito e objeto ao mesmo tempo; agora, conclui, o sujeito é chamado para testemunhar o Real a partir de seu Afeto Traumático. Foster explica ser essa reflexão já desdobrada por Lacan a partir de Barthes, e segue por ele até alcançar no psicanalista francês a percepção sobre o encontro faltoso com o Real só se dar novamente por sua repetição. Dessa maneira, Foster considera a problemática do Real, uma vez perdido, parte estruturante ao como a repetição constrói artifícios de recuperação de sua experiência.

 

O salto ao Real apontado por Sloterdijk requer, então, a compreensão do Estado Sensível Traumático que se faz ao encontrá-lo. A consequência, como bem poderá ser percebido nas obras participantes, é de uma necessária confusão entre o que na reaproximação do Real ainda é Autêntico e Imitação, uma vez abalado o próprio testemunho do artista sobre o instante, agora que atingido pelo desconhecimento de suas complexidades ao futuro.   

 

Só poderíamos agir pelo convite ao novo, ao experimento, dando aos artistas a possibilidade de se experimentarem sujeitos e objetos do presente. Não haveria motivos para ser outra coisa. E isso nos exigiu a condição de realizar igualmente em estado de desconhecimento. As obras não foram encomendadas a partir de especificidades prévias, nem temáticas nem em suas linguagens. As obras apresentadas são acontecimentos decorrentes das escolhas de artistas. Porque a qualidade de um Festival vai além do programar para provocar: está na ampla expectativa de como surgirão acontecimentos Autênticos sobre o Real Traumático e precisarão Repetir (Foster) ou Imitar (Sloterdijk) o Real conhecido como única maneira de agir e superar a falta do encontro imposto aos corpos e a vida tal como entendíamos.

 

OUTROS Festival, em origem, é um convite. E como tal, um gesto de aproximação para que o Outro conquiste e recupere a disposição de olhar ao Real a partir dos extremos de cada um, sejam emocionais, discursivos, estéticos, narrativos, poéticos, críticos ou apenas existenciais. Há uma realidade que comporta o Real desfocado ao fundo. E mesmo que comum, a realidade se forja tanto mais nítida pelos e nos acordos coletivos. Só que não exatamente aos artistas. Estes precisam, cada dia mais, ocupar a participação que lhes cabe: pulsar a vida. Pulsar naquilo que não se espera e imagina. Gerar Outros extremos de tensões ao todo. Para que assim, quem sabe, alcancem as mentalidades. Mesmo que por instantes. E torná-las duvidosas às próprias percepções.

Bom Festival a todes.

RUY FILHO